CAPÍTULO 90

- Você jogou um feitiço em mim, fala a verdade – eu disse acariciando seus cabelos, Bruno riu baixinho.

- Joguei – eu o ouvi dizer ainda entre risinhos – Volta a morar comigo – ele pediu subitamente. O encarei por alguns segundos e suspirei fundo.

- Não sei se já é a hora – eu respondi baixinho. Na verdade, eu tinha medo. Depois de tudo o que houve entre nós dois, voltar a morar com ele, relembrar as sensações, os pressentimentos, tudo o que eu sentia naquela casa… era um caminho sinuoso demais para que eu decidisse só com o que o meu coração pedia naquele momento. Eu tinha que usar a razão.

- Por que tá dizendo isso? – Bruno retrucou, parecendo estar magoado. Sentei-me na cama com as costas apoiadas no encosto do móvel e coloquei uma mexa de meu cabelo atrás da orelha, sabendo que hora ou outra nós teríamos aquela conversa.

- Eu só… não sei Bruno – fechei os olhos e apoiei a cabeça em meus joelhos flexionados.

- Tudo bem… – ele disse. Se tinha algo que realmente me incomodava em Bruno, era aquela bendita mania de deixar os outros se sentirem mal mesmo o errado na história toda sendo ele.

- Bruno, por favor – eu o encarei ainda com a cabeça apoiada em meus joelhos – Não comece com isso. Nós precisamos conversar.

Bruno levantou com dificuldade, nem dando ouvidos ao que eu tinha acabado de dizer, e seguiu até o banheiro. Sem pensar duas vezes, eu fui atrás dele.

O observei lavar o rosto lentamente encostada à porta e ele virou rapidamente na minha direção.

- Você não pode fugir de todos os assuntos que te deixam incomodado pra sempre – eu disse firmemente.

- Não quero falar disso agora – ele rebateu ligando o chuveiro e tirando a camiseta rapidamente. Peguei-o pelo braço.

- Você quer sim – wow. Vai dizer, essa Cecília toda cheia de si agora era muito mais legal do que a Cecília submissa de antigamente, né?

Bruno bufou, irritado, e desligou o chuveiro, não tendo escolha depois de minha insistência. O peguei pela mão e o levei novamente até a cama, sentando-me com as pernas cruzadas bem no meio do colchão. Bruno, ainda emburrado, se mantinha ao pé da cama, com os braços cruzados e virado de costas para mim. Não me segurei e gargalhei alto, recebendo um olhar curioso dele.

- Você parece uma criança birrenta – falei entre risinhos, conseguindo arrancar um sorriso leve de seus lábios. Me arrastei até onde ele estava sentado e passei as mãos por suas costas nuas, massageando seus músculos calmamente. Distribuí beijos demorados por toda região de seus ombros.

- Eu amo você – eu disse baixinho abraçando-o de leve.

- Então por que você não volta pra cá logo? – ele resmungou.

- Bruno, eu tenho medo, tente me entender – confessei finalmente. Bruno virou-se na cama, colocando-se à minha frente, e tomou meu rosto em suas mãos. Ele me abraçou ternamente depois de me encarar por alguns segundos.

- É tudo minha culpa… – ele dizia rente ao meu ouvido.

- Não fale assim… se nós vamos tentar de novo, então não vamos atropelar as coisas – eu sussurrei ainda agarrada a ele – Quando eu to perto de você, a vontade de ficar aqui pra sempre é maior do que qualquer outra coisa, mas eu… nós temos que continuar devagar nisso. A gente já viu que agir só pelo que sentimos no momento pode não acabar bem.

- Você tá certa – ele respondeu apertando um pouco mais o abraço. Ficamos naquela posição por longos minutos, só nos sentindo.

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- Dorme aqui? – Bruno disse me encarando com aqueles olhões carentes. Humpf. Sabia que conversar com ele não ia adiantar nada.

- Mas eu já dormi hoje – respondi terminando de colocar a camisetinha de bichinhos em Julian.

- Então… posso dormir com vocês no apartamento? – ele falou tentando me convencer. Argh. Bruno era uma criança mimada – O quê? Não é na mesma casa… – ele continuou depois que eu revirei os olhos.

- Tá bom, Bruno – eu disse depois de alguns minutos, convencida. Talvez fosse bom ele finalmente sair daquela casa. Imagine uma pessoa hiperativa ser obrigada a ficar quieta… pois é.

Mais tarde, no caminho para o apartamento, eu deixei com que os pensamentos tomassem conta de mim enquanto dirigia. Finalmente acho que tudo estava se ajeitando. Eu ainda tinha medo do que podia nos esperar pela frente, mas só pelo fato de ter Bruno ao meu lado, saudável e mais lindo do que nunca, já me acalmava o coração. Todas aquelas sensações que antes eu sentia, o vazio, a dor… acho que estava conseguindo me livrar delas e finalmente perdoar. Perdoar o que tinha acontecido, me perdoar… era muito difícil viver com toda aquela angústia dentro de mim, o ódio, a raiva. Não era nem bom para a minha saúde mental. E a mente é tudo para que um ser humano consiga viver a sua vida em paz.

- Tá quietinha – Bruno disse me olhando do sofá da sala com Julian no colo. Eu abri um sorriso tímido da cozinha.

- Só to pensando – respondi baixo.

- Como sempre – ele disse no mesmo tom – Desde o primeiro dia em que te vi, você foi um mistério em forma de pessoa – Bruno continuou parecendo mais estar desabafando. Não consegui controlar o riso, recebendo um olhar desconfiado dele logo em seguida. Talvez eu realmente fosse um pouco pensativa mesmo.

Depois de nos empanturrarmos de pizza e Julian brincar até cair no sono de tanto cansaço, eu ajudei Bruno a se vestir e deitar em minha cama. Era até um pouco esquisito tê-lo por perto naquele quarto que sempre foi vazio.

No meio da noite, eu pude ouvi-lo falar baixinho e se movimentar bastante. Abri os olhos e me deparei com Bruno a poucos milímetros de meu rosto, me segurando pela cintura e respirando pesadamente. Ele falava algumas palavras sem sentido, e estava levemente suado. Levantei-me devagar e sentei-me ao seu lado, observando-o por alguns segundos. Tinha medo de acordá-lo e assustá-lo por isso. Quando achei que seus movimentos haviam ficado bruscos demais, segurei um de seus braços com a maior sutileza que pude naquele momento. Comecei a passar a mão por sua pele, tentando acalmá-lo, e ele abriu os olhos de repente.

Bruno colocou uma das mãos na testa e estava um pouco ofegante. Ele sentou-se ao meu lado, com o olhar perdido, e apertou a mão que eu ainda o acariciava.

- O que houve? – eu perguntei baixinho. Ele virou o rosto para me encarar com aqueles olhões amendoados, demonstrando um pouco de nervoso em sua expressão. Sem dizer nada, ele me puxou para um abraço apertado.

- Promete pra mim – ele disse rente ao meu ouvido – Promete que não vai mais embora, que não vai mais me deixar – mas o que… por que raios ele estava dizendo aquilo? – Promete Cissa – Bruno continuava pedindo.

- Eu prometo – disse honestamente, sentindo-o relaxar um pouco o corpo. Nos separamos por alguns segundos e eu passei a mão por seu rosto úmido – O que aconteceu?

- Não consigo… não consigo dormir sem que tudo volte na minha cabeça – ele disse com a voz meio falha – Tudo o que aconteceu, me perdoe por favor…

Eu podia sentir a dor em suas palavras e toda a culpa que imaginei que ele carregava depois de todo aquele tempo. Coloquei sua cabeça em meu ombro e o acariciei ternamente. Eu queria que ele se libertasse daquilo também, assim como eu fiz. De certa forma, eu sabia o que ele sentia. Foram muitas noites de pensamentos torturando o meu sono. No fundo, eu e Bruno éramos iguais. Nós guardávamos toda a mágoa e dor dentro de nós mesmos, até que chegava num ponto em que o nosso corpo não aguentava mais aquele peso emocional e desabava. Nós castigávamos o nosso físico com problemas psicológicos e não deixávamos que ninguém interferisse nem nos ajudasse. Duas mulas teimosas, em outras palavras.

Tomei seu rosto em minhas mãos depois de sentir que ele havia se acalmado um pouco e o beijei devagar.

- Eu te amo – falei a centímetros de sua boca.

- Eu também – Bruno respondeu perdendo o olhar por meu rosto.

- Vai ficar tudo bem – dei outro selinho demorado em seus lábios – Já acabou agora.

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EPÍLOGO

- BRUNOOO – gritei da cozinha de nossa casa ouvindo-o gargalhar e gritar da piscina – Argh.

- Deixa Cissa – Urbana disse entre risinhos ao meu lado – Ele vai correr por um mês inteiro agora que tirou aquela coisa da perna – ela continuou, não contive o riso.

De fato, aguentar Bruno semi contundido por meses foi um martírio. Nos últimos dias ele já não aturava mais ficar com a perna esticada o tempo todo e choramingava feito uma criança. Até o peguei tentando arrancar um pedaço do gesso. Posso com isso?

Julian, que agora também corria feito uma formiguinha por todos os cantos da casa, estava mais serelepe do que nunca. Imagine uma criança de quase dois anos e um adulto que era praticamente uma criança juntos… pois é.

Tínhamos todos em casa naquele fim de semana, eu senti tanta falta de tudo aquilo. Era como se o começo tivesse voltado, mas agora tínhamos Julian também. Dá pra entender o que eu quero dizer?

Eu amava aqueles dois mais do que tudo na vida. Bruno tinha me mudado em todos os sentidos, desde ser mãe até ser mulher e ter atitudes como tal. Justo eu, Cecília Kamn, que nunca pensei em casar e ter filhos, me encontrei num estado de graça por estar com Bruno e Julian.

Segui com Urbana até a área externa daquela casa que me trouxe tantos sentimentos. Hoje nós já havíamos feito as pazes. Observei Bruno e Julian correrem em volta da piscina e senti borboletas no estômago só de vê-lo todo encharcado e naquele piso escorregadio. Argh. Eu era mãe duas vezes. Carol, que passava uma temporada conosco depois de ter trancado a faculdade, se juntou a mim e Urbana.

- Ah Cissa – ela começou com um largo sorriso no rosto – Mas eles são lindos.

Nós três rimos feito bobas vendo finalmente as coisas em seu devido lugar e sem mais nenhum drama incomodando nossas vidas.

- Você não pensa em ter mais filhos, Cissa? – Urbana falou, ainda gargalhando, percorrendo os olhos por Julian, que agora estava de cabeça para baixo no colo de Bruno. Argh.

Eu ri, deixando transparecer toda a minha felicidade, mas continuei em silêncio esperando que as duas, Urbana e Carol, entendessem o meu recado.

- O QUÊ? – as duas falaram praticamente ao mesmo tempo, o que me fez sorrir ainda mais. Carol colocou as mãos à boca e Urbana me olhou, atônita.

- Tá atrasada há três semanas, conversei com mamãe ontem – eu disse com os olhos brilhando.

Recebi um abraço apertado quase de tirar o fôlego e suspirei alto. Eu estava orgulhosa de mim. Orgulhosa por tudo o que eu e Bruno passamos.

Ouvindo nossas risadas, ele se aproximou, com o neném no colo, e abriu aquele sorriso que faz suas pernas balançarem e seu corpo amolecer em segundos.

- Do que vocês tão rindo? – ele perguntou me dando um selinho demorado. Eu, Carol e Urbana nos entreolhamos brevemente e senti as mãos das duas acariciarem minha barriga. Bruno arregalou os olhos e entregou Julian à Urbana rapidamente. Ele me levantou do chão e me rodou em círculos, me deixando um pouco zonza, confesso.

- É sério isso? – ele disse rente aos meus lábios.

- Eu ainda não sei – respondi entre risinhos – Tá atrasada há três semanas.

Ele me apertou mais forte e me beijou calmamente.

- Te amo.

F I M

CAPÍTULO 89

Aviso: este capítulo contém cenas de sexo. Se você se sente desconfortável, não leia =P

- Mas… – eu comecei meio sem jeito.

- Por favor – ele implorou ainda me encarando. Sinceramente, eu já não me importava mais se isso era ou não falta de dignidade e auto controle, mas me diga… o que você faria se Bruno Mars machucado e carente estivesse pedindo pra você entrar no chuveiro com ele? É. Foi o que eu pensei.

Ele abriu a porta do box devagar e me observou enquanto eu tirava minhas roupas lentamente. Durante o período em que Bruno ficou no hospital, eu havia o ajudado a tomar banho por diversas vezes, e ele nunca foi daquelas pessoas envergonhadas, como eu. Mas confesso que naquele momento eu senti as borboletas em meu estômago mais fortes do que nunca. Nós não ficávamos, er, daquela maneira há muito tempo e a minha insegurança de sempre não me deixava relaxar por um minuto sequer.

Assim que entrei no box, Bruno envolveu os braços por meu corpo e me abraçou. Eu o abracei de volta cuidadosamente, com medo de machucá-lo. Bruno mantinha as mãos espalmadas em minhas costas, prensando meu corpo contra o dele. Podia ouvir sua respiração pesada rente ao meu ouvido e sentia seu peito subir e descer lentamente. Passei a mão por seus cabelos e o senti afundar o rosto na curva de meu pescoço. Só Deus sabe o quanto eu pedi pra que esse dia chegasse.

- Eu ouvi Cissa… – ele disse baixinho.

- Ãhn? – falei involuntariamente.

- Eu ouvi… ouvi você falando comigo, enquanto eu tava… em coma – Bruno continuou no mesmo tom. Fechei os olhos fortemente ao lembrar daquela cena e sorri de leve ao mesmo tempo, feliz por saber que ele conseguia se lembrar de tudo.

Bruno separou nossos corpos e me encarou antes de suspirar profundamente. Tive a impressão de que ele queria me contar algo, e continuei acariciando seus cabelos, estimulando-o a falar.

- Eu… eu sempre sonhava com você, desde quando a gente decidiu se separar – ele começou fechando os olhos – Você… faz eu me sentir diferente e eu não sei como lidar com isso – Bruno continuou, parecendo sofrer com aquilo tudo – Ultimamente tava ficando tudo mais forte, você parecia que tava cada vez mais perto de mim e eu não conseguia mais te tirar da cabeça – ele abriu aqueles olhões amendoados, parecendo que conseguia enxergar até minha alma – Naquela noite eu disse pra ela como me sentia. Eu disse. E… ela ficou maluca, começou a me bater e jogar coisas – Bruno parou por alguns segundos e eu balancei a cabeça de leve, estimulando-o a falar novamente – Depois… depois ela se jogou em cima de mim e colocou as mãos no volante… e… e eu só vi aquela luz branca bem forte.

Me cortava o coração vê-lo se abrir daquela maneira comigo. Ele estava tão frágil, vulnerável… não me lembro de ter visto Bruno daquela maneira em nenhum momento desde o dia em que o conheci. Meus olhos, já marejados, continuavam fixados nos dele.

- Bruno… – eu sussurrei baixinho. Ele uniu nossas testas.

- Eu amo você – pude ouvi-lo dizer enquanto sentia uma lágrima escorrer por minhas bochechas, misturando-se à água do chuveiro que caía sobre nossos corpos unidos – Eu pensei que fosse te perder, perder Julian. Eu pensei que nunca mais fosse ficar perto de você assim, por favor Cissa… me perdoa, me perdoa por tudo o que eu te fiz. Eu sei que não mereço que você confie em mim, mas eu não vou aguentar mais não te ter. Fica comigo.

Meu coração batia tão rápido que eu quase podia senti-lo pulsar perto de meus ouvidos. Eu esperei tanto pra que isso acontecesse. Eu o queria tanto. Eu o amava tanto.

Assenti minha cabeça de leve, já totalmente uma bagunça de sentimentos, chorando feito criança e sorrindo ao mesmo tempo. Bruno uniu nossos lábios e iniciou o beijo que eu esperava há meses para acontecer.

- Caralho… – ouvi Bruno dizer contorcendo o rosto de dor quando as coisas já estavam ficando, er, mais sérias. Eu ri baixinho, sapeca, e ele abriu aquele sorriso pra mim.

- Vai com calma – eu disse acariciando seu rosto.

O coloquei em meu colo depois de ajudá-lo a se vestir e deitar novamente na cama. Ele envolveu o braço por meu corpo e foi relaxando gradativamente conforme os minutos passavam e minhas mãos se afundavam mais em seus cabelos. Phil havia levado Julian para sua casa. Hã… ele já devia saber, safadinho. Sorri para mim mesma e o observei por horas a fio, quase não acreditando naquilo tudo.

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Aquela semana passou voando. De certa forma, foi até bom. Bruno e eu estávamos dando passos cuidadosos a respeito do nosso relacionamento. Não queríamos apressar as coisas e acabar estragando tudo.

Eu o observava enquanto ele dava garfadas monstruosas na lasanha que havíamos pedido de almoço. Julian engatinhava pelo chão da sala de estar, rindo baixinho vez ou outra por algum motivo aleatório.

- Dorme aqui hoje – ele pediu entre mordidas. Cerrei os olhos, suspeitando de suas intenções e ele sorriu, sapeca, confirmando meus pensamentos.

- Durmo – eu respondi também sorrindo – Mas Julian também vai ficar, não vou deixar Phil tomando conta dele de novo.

- Tudo bem – Bruno disse virando o rosto para observar o neném – Você dá de mamar e aí ele capota rapidinho – gargalhamos juntos.

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- Bruno, calma – eu dizia entre suspiros fortes enquanto ele passeava as mãos por todo meu corpo e beijava meu pescoço deitado no sofá da sala. Julian dormia profundamente na poltrona ao lado e eu lançava olhares preocupados em sua direção a cada dez segundos.

- Não consigo mais esperar – ele dizia entre os selinhos.

- Bruno… – eu mal conseguia falar – Deixa eu levar o neném pro berço, não vai demorar – consegui encará-lo, sorrindo feito boba, já me desvencilhando de seus braços. Ele esticou as mãos, fazendo cara de cachorrinho sem dono, enquanto eu pegava Julian cuidadosamente no colo.

O coloquei em seu berço, ao lado do Stitch de pelúcia, e esperei por alguns segundos, me assegurando de que ele não acordaria.

Voltei para sala, encontrando Bruno na mesma posição em que o deixei. Sentei sobre seu quadril, sentindo-o colocar as mãos em minha cintura.

- Você vai querer ficar aqui? – eu disse sorrindo.

- Não consigo andar muito rápido até o quarto – ele respondeu acariciando meu corpo devagar.

- Eu te ajudo – falei inclinando meu tronco e beijando-o de leve.

- Ah não… aqui, Cissa – Bruno esticou o lábio inferior, parecendo uma criança manhosa de cinco anos, e eu o suguei lentamente. Ainda tinha medo de machucá-lo, porque ele estava com a perna em recuperação e as costelas não podiam receber nenhum peso, se é que você me entende. Mas acho que naquele momento nem ele ligava para essas meras dores físicas.

Tirei sua camiseta lentamente e passei as mãos por seu tórax. Bruno tinha algumas pequenas cicatrizes, frutos do acidente, e eu fixei meus olhos naquelas marcas que nunca mais sairiam de seu corpo. Ele pegou uma de minhas mãos e a beijou de leve, me fazendo sorrir.

Não demorei em me despir e voltar a encaixar meus quadris em suas coxas, vendo-o passar os olhos por toda extensão de minha pele nua. Não queria fazê-lo esperar muito e nem deixar as coisas fora do controle a ponto dele se lembrar dos machucados. Abaixei seus shorts e boxers até a altura de seus joelhos e repeti seu ato de minutos atrás, o observando por alguns segundos.

Peguei suas mãos e as fiz moldar meus seios, colocando as minhas por cima, o guiando em seguida por pontos sensíveis em meu corpo. Nós suspirávamos quase simultaneamente a cada parte de meu corpo que ele tocava.

Enquanto ainda sentia seus dedos me acariciando, eu levei minhas mãos até seu peito e barriga, repetindo o mesmo ato e trocando as mesmas sensações com ele. Inclinei meu tronco e distribuí beijos rápidos por toda a região, sentindo-o apertar minha cintura com um pouco mais de força.

Ele gemeu alto quando o envolvi com a boca. Bruno segurou as laterais do sofá com força conforme eu mudava os movimentos e o via também arqueava um pouco as costas, me mostrando que estava no caminho certo.

Depois de alguns minutos, eu distribuí beijinhos pela linha de seu quadril antes de levantar meu tronco novamente. Ele apertou minhas coxas conforme eu me levantei levemente e o coloquei dentro de mim devagar. Repousei minhas mãos em cima das dele quando comecei a movimentar meus quadris num ritmo torturantemente prazeroso para nós dois.

Eu ouvia ele dizer meu nome quase num sussurro vez ou outra, o que fazia meu estômago formigar e minhas pernas amolecerem de mais vontade. Apoiei minhas mãos em seus ombros quando senti que estava quase atingindo o clímax e aproximei meu rosto do dele, não conseguindo manter os olhos abertos.

Pela primeira vez, não trocamos nenhuma palavra quando finalmente chegamos ao orgasmo. Nossos olhares se fixaram um no outro, passando as sensações e sentimentos que estávamos sentindo depois de tanto tempo separados.

Me aconcheguei cuidadosamente em seu peito depois de recuperarmos o fôlego. Ajudei Bruno a colocar suas roupas novamente e fiz o mesmo. Seguimos corredor adentro em silêncio, de mãos dadas e devagar, no ritmo que ele conseguia. Ao passarmos pelo quarto de Julian, abri a porta e o espiei. Bruno beijou minha bochecha e observamos o neném segurar o Stitch de pelúcia junto ao corpo, abraçado.

- Te amo – ele disse rente ao meu ouvido.

- Eu também – suspirei de volta.

CAPÍTULO 88

Eu esticava o pescoço por entre o médico e as enfermeiras, tentando enxergar Bruno e rezando para que aquilo tudo não fosse uma miragem, um sonho. Depois de muito me entortar por entre as pessoas, uma das moças virou-se para mim com a testa franzida.

- Desculpe senhorita, mas agora você vai ter que sair.

- Mas, eu… – tentava dizer enquanto ela já me colocava para fora do quarto. Fiquei observando por entre o vidro do lado de fora, com o coração batendo mais rápido que nunca.

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Os minutos passavam e eu já não sabia mais o que fazer, andando de um lado para o outro na conhecida ala de emergência. Eu via o entrar e sair de pessoas do quarto de Bruno e nenhuma sequer parava para me dar informações.

Sentada em um dos bancos, eu levei o rosto às mãos, pedindo baixinho para que toda aquela movimentação fosse um bom sinal. Respirei diversas vezes, tentando mandar mais oxigênio para o cérebro e fazer minha agonia passar.

- Cecília? – ouvi a voz conhecida de Dr. Carly me chamar. Levantei num pulo, vendo-o sorrir – Ele está bem.

Suspirei alto com o alívio que senti. Finalmente.

- Quando posso vê-lo? – perguntei mais que depressa.

- Vou deixar você entrar agora, mas não se esqueça de que ele não pode passar por emoções fortes – Dr. Carly disse rindo baixo.

Parei alguns segundos à porta do quarto antes de andar até a cama. Quando cheguei ao lado de Bruno, ele levantou aqueles olhões amendoados e me encarou ternamente. Só Deus sabe o quanto eu senti falta daquele olhar.

- Oi – ele disse baixinho e eu sorri, boba, sentindo lágrimas já se formarem.

- Oi – respondi no mesmo tom.

Bruno levantou a mão até a altura de meu rosto e passou os dedos por minha bochecha.

- Senti sua falta – eu disse abrindo mais o sorriso.

- Eu também senti a sua – pude ouvi-lo responder quase num sussurro ainda me acariciando – Chega mais perto de mim – ele quase implorou.

Inclinei a cabeça e encostei minha testa junto à dele. Eu estava sentindo um mix de alívio e dor ao mesmo tempo. Queria vê-la fora daquele lugar o mais rápido possível, mas só de lembrar de como ele estava antes e poder sentir seu toque e ver seus olhos agora… era como uma vitória.

- Vai ficar tudo bem – eu disse rente à sua boca, com os olhos fechados. Rocei meus lábios por seu rosto, sentido-o relaxar pelo carinho, e passei minha mão pela lateral de sua testa, chegando até seus cabelos, como eu sabia que ele sempre gostara. Vi Bruno tentar se mexer na cama e retorcer o rosto.

- Tá sentindo muita dor? – perguntei me levantando novamente, mas sem parar os carinhos. Ele assentiu de leve com a cabeça e virou os olhos para poder me encarar. Peguei o bichinho de pelúcia de Julian, que repousava quase embaixo de seu travesseiro, e o coloquei bem ao lado de seu corpo.

- Você achou – ele disse sorrindo.

- Achei, e também fiquei sabendo sobre você dar de presente pro Julian escondido de mim, mocinho… – eu falei cerrando os olhos, ouvindo-o gargalhar de leve. Queria fazê-lo esquecer do lugar em que estava.

- Você não ia deixar ele brincar – Bruno disse me esticando a língua.

- Ele ia enfiar esse treco na boca! – eu disse também rindo. Silêncio. Entrelacei nossos dedos por longos minutos enquanto voltei a acariciar seus cabelos com minha outra mão. Bruno mal se mexia, e quando o fazia, as expressões de dor em seu rosto me cortavam o coração. Eu já nem ligava mais pro que os outros, ou até ele mesmo, pensaria do que eu estava fazendo naquele momento. Não aguentava mais esconder o que sentia.

Voltei a inclinar meu rosto e comecei a distribuir selinhos por toda extensão de seu maxilar, bochechas e até perto dos lábios.

- Cissa… – ele disse baixinho com os olhos fechados.

- Hm? – eu resmunguei bem rente à sua pele.

- Você… você vai ficar aqui comigo mesmo? Você disse… – ele perguntou cortando um pouco as palavras. Abri meus olhos e o encarei.

“Bruno… se você puder me ouvir… eu to aqui. Vou sempre estar aqui. Eu te amo.”

Paralisei por alguns segundos. Será… será mesmo que essas coisas de que quando a pessoa está em coma ela ainda pode ouvir o que acontece ao seu redor são verdade? Assustador. Mas eu também não ia questioná-lo.

- Se você quiser, eu fico, você sabe… – eu disse tentando não pressioná-lo a me ter por perto.

- Eu quero – ele disse rapidamente quase emendando com a minha última palavra – Por favor, fica…

Confesso que senti uma alegria imensa de ouvi-lo pedindo pra que eu ficasse ao seu lado, mas não podia negar que ele estava frágil e precisando de alguém mesmo. Cecília, não leva pro coração.

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- Olha como eu cresci, papai – eu dizia segurando Julian no colo e passando meu olhar dele para Bruno.

Seis semanas. Seis semanas inteiras naquele bendito hospital, revezando com Ryan e Phil as noites mal dormidas no pequeno sofá ao lado da cama de Bruno. Se pudesse, ficaria todos os dias. Mas Julian não podia ficar morando na casa de Phil ou na de Eric. Finalmente estava havia chegado o dia de Bruno sair daquele lugar, em algumas horas ele estaria de volta à sua casa. Também revezaríamos para ficar com ele. Bruno mal tinha voltado a andar, sob orientações médicas, e acabara de tirar a bandagem que protegia as costelas. Nosso relacionamento durante todo esse tempo foi muito próximo e cheio de carinhos, mas não chegamos a conversar sobre nada. Por dentro eu estava morrendo de insegurança e ansiedade, mas é óbvio que eu jamais o confrontaria tendo em vista tudo o que havia acontecido nas últimas semanas.

Lara tentou visitar Bruno no hospital algumas vezes, ele nem soube. Não deixamos que ela entrasse e estragasse com toda recuperação que todos estavam lutando para ser da melhor maneira possível para Bruno. Durante algumas noites em que eu fiquei com ele no hospital, pude ouvi-lo falar durante o sono, agitado. Ele nunca nos contou o que aconteceu aquele dia.

No fim daquela tarde, ajudamos Bruno a ir para casa e o deitamos em sua cama. Ele suspirou aliviado.

- Finalmente – pude ouvi-lo dizer passando as mãos pelos lençóis. Enquanto os meninos traziam as coisas para dentro, me sentei perto de Bruno com Julian em meu colo. Ficamos rindo baixinho observando o neném saracotear engatinhando por entre as cobertas.

- Vai ficar aqui hoje? – ele me perguntou algum tempo depois.

- Era a vez do Ryan, mas se você quiser… – eu respondi tentando não gritar de felicidade.

- Quero – Bruno disse baixinho. Nos entreolhamos rapidamente antes de ouvirmos Julian gargalhar alto por algum motivo aleatório.

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- Cissa, isso dóooooi – ele resmungava feito uma criança de cinco anos enquanto eu tirava sua camiseta rapidamente antes que ele entrasse no box do chuveiro. Eu ri, sapeca.

- O médico disse que você pode tomar banho normalmente agora, então vai – eu disse vendo-o fazer caretas.

Eu o vi cambalear algumas vezes, por conta da perna recém operada, e entrar no banho, colocando as duas mãos espalmadas nas paredes com azulejos brancos. Ele me olhou nos olhos depois de longos minutos apenas deixando com que a água caísse em suas costas.

- Chega mais perto de mim… – ele pediu baixinho.

CAPÍTULO 87

- O quê? – ela disse me olhando da mesma maneira.

- Foi você! Foi você! – eu continuei repetindo, já sentindo Ryan pegar uma de minhas mãos e tentar me colocar um pouco mais distante de Lara.

- Sua louca – ela rebateu e em frações de segundos eu vi minha mão livre ir contra seu rosto com o máximo de força que eu tinha. Ryan agora já me segurava pela cintura e Lara se colocava de pé, com a mão no lugar onde eu havia batido poucos segundos atrás, e avançando para cima de mim.

Nossos gritos ecoavam pela sala conforme tentávamos nos acertar com o máximo de força que tínhamos. Os meninos tentavam nos segurar, mas nos debatíamos tanto que era quase impossível.

Em um momento de distração de Ryan, consegui me desvencilhar de seus braços e voei em Lara, derrubando-a no chão e esbofeteando-a, demonstrando o ódio que sentia.

Eric me puxou para um canto da sala enquanto Phil fazia o mesmo com Lara, que agora também tinha o nariz e a boca sangrando.

- VOCÊS ESTÃO MALUCAS? – Ryan gritou olhando de mim para Lara rapidamente. Nós nos encarávamos quase nos matando apenas pelo olhar.

- Será que vocês não vêem – eu disse baixinho – Não faz o menor sentido esse acidente… não faz o menor sentido Bruno ter jogado o seu lado do carro pra cima do ônibus – silêncio.

Phil me encarou com uma expressão de dúvida, como se estivesse juntando as peças do quebra-cabeça junto comigo.

- Ele ia querer se matar? – eu continuei ainda com a respiração ofegante.

Phil deixou Lara sentada no chão e se levantou, colocando uma das mãos na testa, pensando freneticamente no que eu tinha acabado de dizer. Eric ainda me segurava fortemente.

- Eu não queria – Lara disse depois de longos minutos em silêncio. Todos os olhares se viraram em sua direção – Eu juro que não queria – ela chorou.

- Mas o que… – pude ouvir Eric grunhir rente a mim.

- Eu estava cega de ódio porque ele tinha LEVADO ELA PRA CASA – Lara gritou me encarando nos olhos – E eu sabia que ele ainda sentia alguma coisa por essa porra de garota, hã… ele ainda falava o nome dela todas as noites – ela riu de uma maneira quase dolorosa. Meu coração já batia tão rápido que eu começava a sentir uma leve dor de cabeça – Começamos a discutir e eu o estapeei diversas vezes… mas eu não vi, eu juro que não vi o ônibus… eu não queria que ele se machucasse, só queria fazê-lo parar de correr daquele jeito – Lara dizia entre soluços – Eu virei o volante do carro… e foi aí que vi, eu vi… aquelas luzes…

Eu havia paralisado. Não era possível que tudo aquilo realmente estava acontecendo. Eric finalmente tirou os braços da volta de meu corpo e eu pude me levantar, com uma das mãos sobre a boca.

- Você precisa se tratar – eu disse contra meus dedos – Você… você podia tê-lo matado

Ouvíamos seu choro ecoar pelas paredes da ala de emergência do hospital enquanto ficávamos lá, sem nos mover, completamente atônitos com o que tínhamos acabado de ouvir.

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- Vou pegar algumas roupas no quarto dele – eu disse enquanto seguia pelo corredor da casa de Bruno. Eric e eu decidimos ir dar uma olhada na casa e pegar coisas para que ele usasse enquanto ficasse no hospital.

Lara? Seu irmão havia ido pegá-la, mas ela ouviu poucas e boas de Eric, Phil e Ryan antes de ir embora. E com certeza levaria um processo nas costas. Mas… sinceramente, eu nem me importava mais com o fim dela, só pensava em Bruno naquele momento. Doía só de lembrar em vê-lo naquela cama, imóvel, machucado. Bruno era hiperativo demais para eu me acostumar com aquele silêncio no cômodo em que ele estava. Nunca, nada, era silencioso quando Bruno estava por perto. Só o queria de volta. O meu Bruno.

Fucei pelas roupas dele em seu closet, pegando algumas coisas que pudessem ser úteis e também objetos pessoais. Quando cheguei a uma das prateleiras, encontrei um bichinho de pelúcia bem ao fundo. Tirei-o devagar e ri baixinho quando vi que era o bonequinho Stitch, do filme Lilo & Stitch. Bruno gostava de assistir a esse filme com Julian. Acho que era porque o filme se passava no Havaí. E talvez também porque Julian quase se engasgava de tanto gargalhar quando Stitch falava no filme.

- Eric… – eu disse da ponta do corredor vendo-o virar a cabeça para me encarar da sala de estar – O que é isso? – eu levantei o bicinho de pelúcia. Ele riu alto.

- Bruno comprou pro neném quando a gente tava na Europa – pude ouvi-lo dizer – Ele disse que esconderia de você porque senão você não deixaria Julian brincar, com medo dele colocar na boca – foi a minha vez de rir – Acho que ele deve ter guardado e acabou esquecendo.

Não pude evitar, lágrimas se formaram em meus olhos quando o imaginei falando exatamente aquilo. Abracei o bichinho com força e deixei que minhas costas se apoiassem à parede, já chorando baixinho. Eric correu até mim e me abraçou.

- Ele vai ficar bem – ele dizia acariciando minhas costas.

- Quero ele de volta – eu falei encostando minha cabeça em seu peito.

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O pai de Bruno já havia embarcado para Los Angeles e sua mãe, juntamente com suas irmãs, chegariam em aproximadamente dois dias. E eu preferia nem ver as notícias na televisão e internet sobre o que havia acontecido. Os repórteres não largaram a porta do hospital por nem um minuto desde que descobriram que Bruno estava lá. E já haviam se passado vinte e quatro horas.

Urbana estava com Julian em sua casa enquanto eu ficava no hospital. Já sentia meu corpo cansado física e emocionalmente. Eu fui autorizada a dormir no quarto em que Bruno estava e acordava de cinco em cinco minutos a cada barulho mais alto da máquina que transmitia seus batimentos cardíacos. Pela manhã, eu já estava com uma aparência sofrível.

- Cissa, vai pra casa – Ryan disse me dando um abraço terno – Eu fico aqui, você tá muito cansada.

- Não posso – eu disse rente à sua pele – E se ele acordar…

- O médico disse que isso não vai acontecer hoje e provavelmente amanhã também não – ele disse me encarando nos olhos – Por que você não pega o Julian, descansa um pouco e volta mais à noite com ele aqui?

Assenti de leve com a cabeça. Eu realmente precisava de algumas horas de sono se pretendia ficar ao lado de Bruno por mais tempo depois.

Peguei Julian dormindo na casa de Phil e Urbana e o levei até o apartamento. Tomei um banho demorado e me joguei na cama, deixando com que o cansaço tomasse conta de meu corpo e me fizesse dormir, finalmente.

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Acordei com o choro de Julian ecoando pelo apartamento. Me levantei rapidamente para encontrá-lo tentando ficar em pé no bercinho. Corri até ele e o peguei no colo. Julian chorou, manhoso, até eu conseguir acalmá-lo dando de mamar. Mesmo com mais de um ano, eu ainda conseguia amamentá-lo. E o faria até quando fosse possível.

- Você quer ver o papai? – eu conversei com ele enquanto o via apoiar as mãozinhas em mim.

Peguei seu Stitch de pelúcia, que havia deixado no berço sempre ao lado de Julian, e o levei comigo.

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Cheguei com o neném ao hospital tentando fugir de todos os flashes, de novo. Ryan me encontrou na conhecida sala de paredes brancas e me ajudou com as bolsas de Julian. Eu passaria a noite lá mais uma vez, e Ryan levaria meu carro e Julian para a casa de Urbana e Phil mais tarde. Coloquei Julian em meu colo, junto com o bichinho de pelúcia, enquanto entrava no quarto de Bruno e ouvia aquele bip conhecido, de seus batimentos cardíacos. Ele estava exatamente do mesmo jeito que o deixei. Suspirei alto.

Quando cheguei perto da cama, Julian olhou para baixo e esticou os bracinhos para Bruno, como sempre fazia assim que o encontrava. Mas desta vez ele não poderia retribuir. Coloquei o Stitch de pelúcia e coloquei ao lado de Bruno. Ri baixinho.

- Pronto, agora você vai ficar aqui também – eu disse dando um beijo estalado na bochecha gordinha de Julian.

O tempo naquele hospital sempre passava torturantemente devagar. Os bips daquela maldita máquina ecoavam em minha cabeça, sem que eu conseguisse ajeitar meus pensamentos ou tentar dormir em paz. Mas eu não podia sair dali.

Coloquei minhas coisas no pequeno sofá e arrumei tudo naquela noite. Me deitei e fechei os olhos, mesmo sabendo que não ia conseguir descansar por nem um minuto sequer. Quando já me encontrava completamente perdida em meus devaneios, ouvi os bips da máquina acelerarem descontroladamente. Me levantei quase num pulo, sem saber o que fazer. Eu não fazia idéia do que aquilo significava. Saí corredor afora procurando por médicos e nem precisei andar muito, avistei duas enfermeiras vindo em minha direção.

Em pouco tempo, o quarto estava quase lotado. Acho que passei tão despercebida que até se esqueceram de me tirar dali. Eu ficava na ponta dos pés tentando ver o que acontecia enquanto eles mexiam nos tubos e aparelhos ligados a Bruno, até que consegui, finalmente, enxergar seus olhos se abrindo devagar.

CAPÍTULO 86

- O QUÊ? – eu praticamente gritei, colocando a mão no peito e andando de um lado para o outro. Já sentia minha respiração acelerada, quase ofegante.

- Não queria te falar por telefone, mas achei melhor antes que voc…

- TO INDO PRA CASA DELE AGORA – eu disse já caminhando até o quarto e alcançando meus converses que havia jogado perto do armário.

- Não, não, não… Cissa, eu vou te buscar, pelo amor de Deus, fica aí, eu to indo te buscar.

- Phil por favor diz que vocês tão brincando comigo – eu disse já com a voz chorosa – Por favor…

Pude ouvi-lo suspirar forte mais uma vez do outro lado da linha, e desliguei o celular rapidamente. Saí pelo quarto procurando peças de roupa decentes, já grunhindo de dor e chorando forte. Peguei minha bolsa e desci, esperando por Phil no portão do prédio.

Quando avistei seu carro apontar na esquina da rua, comecei a andar rápido em sua direção. Ele estacionou e saiu, vindo ao meu encontro imediatamente. Phil me tomou nos braços enquanto eu soluçava.

- O que aconteceu? Onde ele tá? – eu disse entre os períodos de tempo que tentava puxar o ar.

- Calma – ele falou passando a mão por minhas costas. Ele me pegou pela mão e me colocou dentro do carro, sentando-se em seguida no banco do motorista.

- Me diz logo – eu consegui balbuciar novamente.

- A gente não sabe direito o que aconteceu. Ele voltou pra casa e foi levar a Lara, depois disso recebi uma ligação dos socorristas. Eu fui até o hospital, mas ele tava na sala de cirurgia.

Levei as mãos à boca e chorei mais alto. Isso só podia ser um pesadelo. Como, por Deus, há poucas horas atrás eu estava abraçando-o e agora ele estava em uma sala de cirurgia?

Seguimos até o hospital em que Bruno foi levado, e eu sentia como se tivesse um buraco no meio do peito. Sabe quando fica uma sensação esquisita, quase como uma pressão forte que não te deixa respirar direito?

- Onde tá Julian? – eu perguntei baixinho, completamente retesada com os últimos acontecimentos.

- Urbana tá com ele lá em casa junto com os meninos, pode ficar tranquila – assenti levemente com a cabeça e fitei o nada por longos minutos durante o caminho até o hospital. Minha cabeça trabalhava com tanta rapidez que eu nem conseguia organizar meus pensamentos.

Avistei uma pequena multidão à frente do hospital em que Bruno estava quando Phil entrou com o carro no estacionamento. O nó em minha garganta só aumentava, junto com meus batimentos cardíacos, conforme eu via os flashes se batendo contra os vidros do carro e pescoços curiosos esticando-se para poder tentar descobrir quem estava dentro do veículo.

Esperei Phil descer e ir até meu encontro no banco do carona. Ele abriu a porta e me ajudou a descer, passando um dos braços por minha cintura rapidamente e tentando me proteger de todas aquelas pessoas amontoadas na porta da área de emergência. Isso não pode tá acontecendo.

Segui com ele até uma ala separada do hospital, uma sala pequena e branca, com poucas cadeiras espalhadas e uma grande TV pendurada à parede. Ele me ajudou a sentar e buscou um copo de água, tentando me deixar mais calma para as notícias que iria receber em seguida.

Senti meus olhos arderem e coloquei uma de minhas mãos em meu peito, respirando profundamente diversas vezes, numa tentativa frustrada de fazer com que a minha tremedeira e meus batimentos cardíacos diminuíssem pelo menos um pouco.

- Eu preciso ver ele – falei baixinho depois de não sei quanto tempo. Phil se levantou e seguiu até a sala ao lado da que estávamos, deduzi que ele havia ido procurar alguém para trazer mais notícias.

Pouco tempo depois, um senhor alto e grisalho vestido de branco adentrou o cômodo, me fazendo levantar rapidamente, enxugando os olhos com as mangas de minha camiseta.

- Boa noite Cecília – ele disse me esticando a mão esquerda – Então você é a mãe do filho do Sr. Hernandez? – assenti devagar com a cabeça apertando sua mão de leve – Sente-se aqui, vou te explicar qual é o estado de saúde dele.

Voltei a sentar-me na cadeira, esfregando as mãos em meus jeans nervosamente, esperando por notícias positivas. Phil ficou ao meu lado e eu observei enquanto o médico tirava de uma pasta alguns exames e papéis de raio x.

- Bom – o doutor voltou a dizer – O Sr. Hernandez sofreu um acidente grave esta noite, pelo qual o veículo em que ele dirigia se chocou contra um ônibus numa via rápida – arregalei os olhos e senti Phil segurar uma de minhas mãos com força – O lado do motorista, o que Bruno estava, foi o que bateu contra o ônibus, fazendo com que ele fosse atingido fortemente. Ele ficou com várias escoriações nos braços e rosto, devido aos estilhaços de vidro, quebrou uma das costelas do lado esquerdo do corpo e também a perna, na altura da canela, deste mesmo lado. Esta última fratura nos fez levá-lo ao centro cirúrgico, visto que ele já havia perdido bastante sangue quando foi socorrido – a essa altura das novidades eu já tinha voltado a chorar como uma criança, mas deixei com que o médico continuasse – Ele também bateu a cabeça, teve um pequeno traumatismo, o que nos fez colocá-lo em coma induzido.

Abracei Phil com força e encostei a cabeça em seu peito, completamente atordoada. Dr. Carly, o senhor grisalho que me explicava com a maior calma do mundo o estado grave em que Bruno se encontrava, me mostrou alguns exames e tentou me tranquilizar, obviamente não obtendo nenhum sucesso. Depois de muito implorar, finalmente consegui uma autorização sua para visitar Bruno por alguns minutos, sozinha.

Pisei no quarto e imediatamente ouvi aquele bip da máquina que transmitia os batimentos cardíacos de Bruno ecoar pelo lugar. Eu andei a passos lentos até a cama, travando uma luta interna sem conseguir decidir se queria ou não vê-lo naquele estado. Levei as mãos à boca quando o avistei.

- Meu Deus… – eu disse baixinho para mim mesma por entre meus dedos. Bruno estava sem camisa, com uma faixa ao redor do tronco, um curativo significativo do lado esquerdo a cabeça e a perna engessada. Respirei fundo pela milésima vez naquelas últimas horas. Senti uma dor horrível atingir em cheio meu peito. Sua pele morena, antes perfeita e macia, na região dos braços, peitoral e boa parte do pescoço e rosto estava com pequenos pontos de sangue coagulado, indicando exatamente aonde os estilhaços de vidro haviam o atingido.

Vê-lo naquele estado, frágil, cheio de tubos para ajudá-lo a respirar e máquinas ao redor da cama, era mais desesperador do que qualquer outra situação que eu pude jamais ter imaginado passar em toda minha vida. Me sentir completamente inútil perante aquilo me fazia gritar por dentro, preferindo me colocar em seu lugar só para voltar a ver aqueles olhos amendoados abertos novamente.

Inclinei meu corpo devagar e o beijei com cuidado na bochecha.

- Bruno… – eu disse baixinho rente à sua pele com a voz embargada – Se você puder me ouvir… eu to aqui. Vou sempre estar aqui. Eu te amo.

Rocei meus lábios novamente por suas bochechas e fechei os olhos por alguns segundos, desejando com todas as forças que aquilo não passasse de um sonho ruim.

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- Vai ficar tudo bem Cissa – Ryan disse passando a mão por meus cabelos me entregando outro copo de água na mesma sala que Phil havia me levado assim que chegamos ao hospital – Brunz daqui a pouco tá botando esse hospital abaixo.

Sorri de leve e bebi um gole da água, deitando a cabeça em seu ombro em seguida. Minha cabeça ainda trabalhava à mil por hora.

- Ryan – eu falei algum tempo depois – E a Lara?

- Ela também tá aqui, mas não sofreu quase nada, só alguns arranhões por conta dos vidros… – ele disse me encarando brevemente.

Forcei minha mente a trabalhar ainda mais rápido. Rebobinei o que Dr. Carly havia me contado a respeito do acidente, o estado de Bruno naquela cama… tudo não fazia o menor sentido. Continuei tentando juntar as poucas peças do enorme quebra-cabeças que eu havia formado em meu cérebro. Flashbacks de Bruno me levando até o apartamento me vieram à mente, o nosso abraço, seu boa noite antes de entrar no carro… as palavras de Phil quando me contou sobre o acidente.

“Ele voltou pra casa e foi levar a Lara, depois disso recebi uma ligação dos socorristas.”

Enquanto eu martelava todas essas informações, vi do outro lado da sala a figura de Lara adentrar o cômodo, seguida por Eric. Ela sentou-se perto da parede e, com o olhar vazio e a cara fechada, cruzou os braços rente ao corpo, deixando a mostra alguns pequenos curativos.

Levantei devagar, vendo Ryan fazer o mesmo caminho que eu logo atrás de mim, e parei à frente dela.

- Foi você – eu disse encarando-a nos olhos.